Depressão: entender para tratar

 





A neurofisiologia da depressão

A depressão é uma patologia desencadeada através da interação de fatores biológicos, psicológicos e sociais que culminam nos sintomas característicos como tristeza, ansiedade e falta de energia. As causas fisiológicas desse quadro patológico são bastante estudadas a fim de identificar possíveis alvos no desenvolvimento de novos tratamentos.

A queda dos neurotransmissores na fenda sináptica é um fator frequentemente associado ao desenvolvimento da doença, visto que a serotonina, noradrenalina e a dopamina são importantes neurotransmissores responsáveis pela regulação do humor. A diminuição da serotonina está relacionada com os sintomas de ansiedade e compulsividade,  a falta de noradrenalina leva o indivíduo a uma falta de energia e interesse pela vida enquanto a depleção de dopamina leva a redução da atenção e da motivação que culminam nos sintomas de tédio e fadiga.

Estudos atuais demonstram que pacientes diagnosticados com depressão e/ou ansiedade possuem uma disfunção que hiperestimula o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal(HPA), o que resulta na liberação do hormônio cortisol, responsável pela resposta ao estresse. Os elevados níveis de cortisol de forma crônica podem danificar áreas cerebrais responsáveis pela memória e pela regulação do humor.

Algumas alterações estruturais no encéfalo também culminam no desenvolvimento do estado depressivo e ansioso. O hipocampo apresenta uma redução em seu volume com a neurogênese diminuída impactando a memória e a regulação emocional, já a amígdala tende a ser hiperativa nesses indivíduos e o córtex pré-frontal possui uma atividade reduzida, o que se associa aos sintomas de apatia e dificuldade de atenção.

Enfim, um dos fatores neurofisiológicos mais importantes observados em pessoas com depressão é a neuroplasticidade reduzida. Essa redução ocorre devido a diminuição da concentração dos níveis do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), uma proteína responsável pelo crescimento e desenvolvimento dos neurônios, o que dificulta que o cérebro se adapte e forme novas conexões.


Tratamentos

O tratamento de primeira escolha para essas condições geralmente envolve a abordagem medicamentosa, responsável pela melhora no estado de humor do paciente. Assim, os medicamentos antidepressivos e ansiolíticos reduzem principalmente a depressão em sua fase aguda, colaborando para a diminuição da morbidade da patologia.

    Dessa forma, o tratamento consiste principalmente em fármacos que aumentem os níveis de neurotransmissores na fenda sináptica, impedindo sua degradação ou resguardando seus transportadores. As principais classes de fármacos compreendem os antidepressivos inibidores da enzima monoaminoxidase, os inibidores não seletivos da recaptação de monoaminas e os inibidores seletivos da recaptação de serotonina.

    A primeira classe de antidepressivos estudada são os inibidores da monoaminoxidase, que, ao inibirem a enzima responsável pela degradação principalmente da serotonina, são capazes de aumentar a concentração desta monoamina na fenda sináptica e, como consequência, o indivíduo pode experimentar aumento da atividade, excitação e euforia. Entretanto, as desvantagens dessa classe compreendem a manifestação de muitos efeitos adversos por inibir uma enzima pouco específica.

Efeitos dos ISRS sobre a serotonina. Fonte: Princípios de Farmacologia. A Base Fisiopatológica da Farmacologia. GOLAN, David E. e col., 3ª edição, 2014.

    Os inibidores não seletivos da recaptação de monoaminas, por sua vez, são fármacos que inibem a recaptação de noradrenalina, serotonina e dopamina pelo bloqueio dos seus transportadores (SERT e NET) na fenda sináptica, levando ao aumento de seus níveis. Ademais, esses antidepressivos bloqueiam receptores adrenérgicos, histamínicos e muscarínicos, o que resulta em muitos efeitos adversos.

    Por fim, uma das classes mais recentes são os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, os quais inibem especificamente apenas a recaptação da serotonina, o que reduz a chance de possíveis efeitos indesejados.

    Desse modo, percebe-se a diversidade de classes de fármacos voltados ao tratamento da depressão e da ansiedade. Entretanto, ressalta-se a existência de outros tipos de tratamento para tais patologias, como tratamentos farmacológicos complementares como o uso de plantas medicinais, além de outras abordagens não farmacológicas como psicoterapia, exercício físico e a aromaterapia. 


Inovações na compreensão da ansiedade e depressão 


A depressão e ansiedade são uma problemática importante de saúde global. Por sua heterogeneidade de características, os tratamentos nem sempre englobam as características de cada caso, com cerca de 30–40% dos pacientes não alcançando a remissão. Visto isso, estudos buscam verificar padrões neurobiológicos funcionais similares, ou biótipos, com medidas personalizadas para quantificar disfunções neurobiológicas em pacientes com depressão e transtornos de ansiedade associados de modo a promover melhorias no manejo de tais quadros. 

Estudos tipicamente utilizam imagens de ressonância magnética funcional (fMRI) para caracterizar biótipos de pacientes deprimidos e ansiosos com disfunções semelhantes do circuito cerebral, com achados de biótipos que respondem de forma diferente à estimulação magnética transcraniana repetitiva (TMS), biótipos caracterizados por hiper e hipo conectividade da rede de modo padrão e biótipos que estão associados a uma resposta mais pobre a antidepressivos padrão, por exemplo.

Ensaios clínicos mostram que medidas derivadas de imagens de ressonância magnética funcional (fMRI) baseada em tarefas frequentemente prevêem a resposta no tratamento da depressão e têm sido recentemente o biomarcador de escolha para o desenvolvimento de novas farmacoterapias.

Os estudos sobre biótipos ajudam a prever a resposta a um único tratamento, em vez de comparar respostas entre diferentes classes de tratamentos. Sendo assim, o tratamento ideal para cada biótipo deve eventualmente ser determinado comparando como diferentes biótipos respondem ao receber o mesmo tratamento.

Uma pesquisa recente usou um novo procedimento padronizado no processamento de imagens de fMRI que foi especialmente capaz de quantificar a função do circuito cerebral denominado de “Sistema de Processamento de Imagem Stanford Et Cere”. Esse método foi aplicado a uma amostra de 801 participantes com depressão e ansiedade (95% dos quais não estavam medicados), e usou como controle 137 pessoas saudáveis. Durante o experimento,os pacientes receberam de forma aleatória um dos três medicamentos mais comumente prescritos na terapêutica (escitalopram,sertralina e venlafaxina) ou foram submetidos a outras intervenções comportamentais. Foram utilizadas as mesmas sequências de fMRI livre de tarefas e evocado por tarefas, assim como avaliações de mensuração de sintomas e medidas comportamentais para validar clinicamente quarenta e uma medidas de ativação e seis biótipos para cada participante. Para caracterizar esses biótipos, foram determinadas as características do circuito, a atividade e a conectividade. Desse modo, 6 biótipos diferentes foram descobertos para a depressão, os quais diferem em perfis de sintomas e desempenho em testes comportamentais gerais e emocionais, cognitivos e computadorizados. Esse achado permitiu demonstrar ainda  que os biótipos diferem em seus resultados em vários tratamentos e dão espaço a uma importante investigação farmacológica. Dessa forma, o estudo nos evidencia a heterogeneidade da depressão e da ansiedade, nos guiando para o estabelecimento de tratamentos individualizados que visem o avanço do cuidado clínico de tais patologias.

Veja o artigo completo:

Tozzi, L., Zhang, X., Pines, A. et al. Personalized brain circuit scores identify clinically distinct biotypes in depression and anxiety. Nat Med 30, 2076–2087 (2024). https://doi.org/10.1038/s41591-024-0


Livro - O demônio do meio-dia: Uma anatomia da depressão.


Partindo de sua própria batalha contra a depressão, Andrew Solomon constrói um retrato monumental da doença que assola nossos tempos. De forma inteligente, curiosa e empática, o autor investiga sua incidência, manifestação, sintomas e tratamentos, desconstrói mitos e explora questões éticas e morais, leitura obrigatória para quem se interessa pelo tema.



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Escrito por Stephanie e Rafaela


Referências 

Delgado, P. L. (2000). Depression: The case for a monoamine deficiency. Journal of Clinical Psychiatry, 61(Suppl 6), 7-11.

Pariante, C. M., & Lightman, S. L. (2008). The HPA axis in major depression: classical theories and new developments. Trends in Neurosciences, 31(9), 464-468.

Campbell, S., & Macqueen, G. (2004). The role of the hippocampus in the pathophysiology of major depression. Journal of Psychiatry & Neuroscience, 29(6), 417-426.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS INSTITUTO DE CIÊNCIAS FARMACÊUTICAS CURSO DE GRADUAÇÃO EM FARMÁCIA IZA RAUANE ROCHA SANTOS TERAPIA MEDICAMENTOSA E TERAPIAS COMPLEMENTARES PARA DEPRESSÃO: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DE LITERATURA MACEIÓ 2023. [s.l: s.n.]. Disponível em: <https://www.repositorio.ufal.br/bitstream/123456789/12945/1/Terapia%20medicamentosa%20e%20terapias%20complementares%20para%20depress%c3%a3o%3a%20uma%20revis%c3%a3o%20integrativa%20de%20literatura.pdf>.

‌TOZZI, Leonardo et al. Personalized brain circuit scores identify clinically distinct biotypes in depression and anxiety. Nature Medicine, p. 1-12, 2024.

Vista do A INFLUÊNCIA DA DOPAMINA NOS TRANSTORNOS DE DEPRESSÃO: REVISÃO DE LITERATURA. Disponível em: <https://unipar.openjournalsolutions.com.br/index.php/saude/article/view/10276/4993>. Acesso em: 23 set. 2024.




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