Agosto Laranja: Mês da conscientização sobre Esclerose Múltipla
O que é EM e quais são seus sinais e sintomas?
Esclerose Múltipla ou EM é uma doença desmielinizante autoimune que acomete, sob forma de lesões, o Sistema Nervoso Central (SNC) e cujo sistema imunológico tem como alvo a mielina (importante estrutura dos neurônios relacionada com a propagação do impulso nervoso). Assim, a EM é uma das principais doenças desmielinizantes e também a segunda maior causa de incapacidade neurológica em jovens adultos, isso por que a mesma é comum em jovens entre 20-30 anos, e ainda mais comum em mulheres brancas com idade entre 35 e 50 anos. Quanto às causas dessa doença, atualmente sabe-se que a mesma trata-se de uma doença multifatorial, logo, acredita-se que a causa se dá por um fator genético que junto a um fator ambiental poderá levar ao desenvolvimento da esclerose múltipla em uma pessoa. Diversas pesquisas indicam que dentre esses fatores ambientais, observa-se uma relação entre infecção viral por herpes-vírus ou retrovírus e deficiência de vitamina D ao desenvolvimento da EM.
Já dentre os principais sinais e sintomas da EM, tem-se a paresia (disfunção ou interrupção do movimento de um ou mais membros superiores e/ou inferiores), formigamento, hipoestesia (déficit sensorial localizado), neurite óptica (dor associada a perda de acuidade visual), diplopia (visão dupla), ataxia, disfunção vesical, vertigens ou ainda o sinal de Lhermite (sensação de choque elétrico que desce da região cervical para os membros inferiores ao se realizar o movimento de flexão-extensão da cabeça). É importante destacar que os sinais e sintomas da EM irão se manifestar de acordo com as áreas afetadas. Além disso, uma característica do tipo mais comum da EM que é a remitente-recorrente é que os sintomas manifestam-se em fases agudas ou subagudas (crises), que podem durar dias ou semanas. Neste caso, as crises duram em média 2 semanas e tendem a desaparecer completamente em grande partes dos casos de EM remitente-recorrente. Em alguns casos a EM pode, ainda, evoluir para casos progressivos, onde observa-se uma piora inexorável dos sintomas que podem ser classificados como secundários (geralmente após 20-40 anos apresentando surtos) ou primários.
Diagnóstico
O diagnóstico da EM é complexo, já que não existe um exame ou marcador específico para ela. Na prática, o diagnóstico é feito com base em critérios clínicos, exames de imagem e laboratoriais. Quanto a avaliação clínica, pelos critérios de McDonald (2017), a documentação de 2 ou mais episódios sintomáticos, com duração maior de 24 horas e contando com separação temporal mínima de 1 mês, além de separação espacial ( 2 ou mais lesões em diferentes áreas nervosas, com evidência clínica) é suficiente para fechar o diagnóstico de EM clinicamente definida. Em casos de uma esclerose múltipla provável, com menor volume de surtos ou lesões identificáveis por exame físico, serão utilizadas outras ferramentas, como a ressonância magnética (RM) de encéfalo e medula espinal, a punção de Líquor Cefalorraquidiano (LCR) e o exame de potencial evocado.
A ressonância magnética é o exame radiológico de maior sensibilidade para a EM, sendo especialmente útil para eliminar possíveis diagnósticos diferenciais. Na RM com uso de gadolíneo, os achados esperados são lesões contrastadas ou hiperintensas (regiões mais claras), que devem ser disseminadas pelo sistema nervoso central. Com o uso da RM, pode-se diferenciar a EM em síndrome clinicamente isolada (SCI) na qual há um único evento clínico, sem correspondência radiológica. O indivíduo diagnosticado com SCI tem risco aumentado de desenvolver a EM, e pode ser benéfico que ele utilize o tratamento padrão para EM como uma tentativa de evitar a progressão para uma esclerose múltipla clinicamente definida. Um exame adicional que pode ser utilizado no diagnóstico são os potenciais evocados, uma série de testes que medem a resposta elétrica do sistema nervoso a estímulos sensoriais como imagens, sons e estímulos táteis. Na esclerose múltipla, devido à desmielinização, haverão áreas com um retardo na condução nervosa, que poderão ser identificadas por este teste com altíssima sensibilidade.
Principalmente em casos de diagnóstico inconclusivo, são feitos testes de LCR. O líquor é obtido via punção lombar, e vários critérios serão avaliados, a exemplo da pressão de abertura, contagem celular e os níveis de proteína, glicose e IgG. Uma das anomalias mais típicas da EM é a elevação da IgG no LCR, o que é identificado como bandas oligoclonais durante a eletroforese. Também, pode ser detectada a presença de proteína básica de mielina no líquor em fases de desmielinização ativa, além de uma discreta elevação na contagem de linfócitos.
Dentro do contexto de diagnósticos diferenciais, os exames de sangue podem ser especialmente úteis para descartar a possibilidade de doenças mimetizantes da EM, como o Lúpus Eritematoso Sistêmico e a doença de Lyme.
Tratamento
O tratamento da esclerose múltipla envolve uma combinação de terapias, incluindo medicamentos, abordagens psicoterapêuticas e aconselhamento físico, de forma a atuar em vários aspectos da doença. O tratamento base irá incluir medicações imunossupressoras e imunomoduladoras, como os fingolimodes e os interferons-beta, respectivamente, com o objetivo de reduzir a frequência e gravidade dos surtos, além de desacelerar a progressão da EM. Além dessa abordagem geral, na ocorrência de surtos ou recidivas, serão utilizadas medicações anti-inflamatórias, principalmente corticosteróides, para controlar o processo inflamatório e facilitar a recuperação. Para o controle dos sintomas, podem ser feitas associações com outros fármacos, a depender da queixa específica (como dor, fadiga, espasticidade e outros). Ainda no contexto de sintomas específicos, na ocorrência de disfunções nervosas regionais, terapias de reabilitação são de extrema valia, como em uma disfunção vesical, para a qual a reabilitação do assoalho pélvico e treinamento de bexiga podem ser grandes aliados.
Além disso, deve haver um cuidado com a saúde geral, baseado principalmente em uma rotina com exercícios físicos regulares, com ou sem complementação de fisioterapia, a depender das necessidades individuais. A carga de exercícios jamais deve ser excessiva, especialmente durante períodos de recorrência aguda, mas a prática de exercícios físicos é altamente recomendada, até em pacientes avançados, por seu benefício psicológico, e também para manter o condicionamento cardíaco e muscular, reduzindo as chances de espasticidade, contraturas involuntárias e até quedas. No contexto psico-cognitivo, a primeiro de tudo, é importantíssimo a existência de uma boa rede de apoio no entorno do indivíduo portador da EM, a qual seja capaz de encorajá-lo e de acompanhá-lo durante sua trajetória. Também, a psicoterapia pode ser uma grande aliada no manejo psicológico, especialmente se houver associação com depressão ou outros distúrbios, mas também, no caso de haver déficits cognitivos, terapias cognitivas e de reabilitação têm um papel importantíssimo. Finalmente, mas não menos importante, é recomendável que o indivíduo evite exacerbar outras possíveis comorbidades, a exemplo, parando de fumar, se for o caso de um fumante.
Prognóstico
Considerando a característica neurodegenerativa da EM e as degenerações altamente deletérias ao SNC, principalmente em longo prazo, os afetados pela patologia enfrentam incapacidades tanto cognitivas quanto físicas ao longo da vida. Tais sintomas afetam os indivíduos a nível biopsicossocial, gerando problemas de trabalho, dificuldade de socialização e realização de atividades do cotidiano, necessitando muitas vezes do auxílio de terceiros ou de objetos de apoio, afetando fortemente a sua qualidade de vida em amplo aspecto, sendo eles relacionados a papel físico, saúde em geral, vitalidade, papel na sociedade, predispondo a desenvolver outros sintomas, tais como depressão e ansiedade, considerando, principalmente pacientes adultos jovens, cuja população é acometida com maior prevalência.
Contudo, apesar da característica neurodegenerativa da EM, a intervenção, principalmente se for precoce, pode prevenir ou mesmo tratá-la, podendo adiar a sua progressão natural, reduzir o acúmulo de sintomas neurológicos, frequência de surtos e melhorar a qualidade de vida, sem ser uma “sentença de morte” podendo viver uma longa vida. Nota-se, ainda, a importância de um o diagnóstico precoce, visto que a introdução com boa adesão de uma terapêutica adequada para cada caso pode resultar em benefícios para o paciente proporcionando uma perspectiva favorável para o seu prognóstico, com redução do acúmulo de incapacidades e retardando a doença, por meio da mudança do seu curso natural.
Agosto Laranja
Visando esclarecer, reconhecer e trazer mais qualidade de vida para os afetados pela patologia, foi criado o Agosto Laranja, mês da conscientização sobre a Esclerose Múltipla oficialmente comemorado no dia 30 de agosto pela Lei federal 11.303/2006 que teve esforços da ABEM (Associação Brasileira de Esclerose Múltipla) para ser implementada. O Agosto Laranja foi criado pela AME – Amigos Múltiplos pela Esclerose e é possível acompanhar essa iniciativa pelo site: https://agostolaranja.org.br/.
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Autoras: Fernanda Denise, Inaê Andreis e Stephanie Lenz
REFERÊNCIAS
SOUZA, Danielle Costa Souza et al. General aspects of multiple sclerosis and perspectives on disease prognosis: Aspectos gerais da esclerose múltipla e perspectivas para o prognóstico da doença. Concilium, v. 23, n. 23, p. 133-147, 2023.
COMPSTON, A., & Coles, A. (2008). Multiple sclerosis. The Lancet, 372(9648), 1502-1517.
MILO, R., & Kahana, E. (2010). Multiple sclerosis: geoepidemiology, genetics and the environment. Autoimmunity Reviews, 9(5), A387-A394.
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