Afinal, o que é a Doença de Parkinson?
HISTÓRIA DA DOENÇA
Em abril de 1827, o médico-cirurgião inglês James Parkinson publicou um trabalho nomeado “Um Ensaio sobre a Paralisia Agitante”, em tradução livre, no qual analisou os casos clínicos de seis pacientes que apresentavam tremores involuntários, fraqueza muscular, e, em maior ou menor grau, dificuldade na fala, aceleração da marcha e propensão de inclinar o tronco para frente. Baseando-se nesses casos, o cirurgião fez a primeira descrição da doença que, muitos anos depois, viria a ser conhecida como Doença de Parkinson. Atualmente, a doença de Parkinson é considerada um distúrbio neurodegenerativo de caráter crônico e progressivo que acomete o sistema nervoso central, prejudicando, principalmente, o controle dos movimentos. Globalmente, é a segunda doença neurodegenerativa mais comum, ficando atrás apenas do mal de Alzheimer. No Brasil, a doença de Parkinson é mais prevalente na população masculina acima dos 50 anos, com destaque à faixa etária dos 60-79 anos.
FISIOPATOLOGIA DA DOENÇA
Na doença de Parkinson, os neurônios dopaminérgicos que constituem a substância negra perdem a capacidade de sintetizar o neurotransmissor dopamina e, com o tempo, se degeneram e morrem. A substância negra é uma estrutura localizada no mesencéfalo que integra os núcleos da base, um conjunto de grupos neuronais que tem uma importância crítica no planejamento e na execução dos movimentos voluntários. A maioria desses núcleos se localizam no telencéfalo, como é o caso do corpo estriado e globo pálido, outros se localizam no diencéfalo (núcleo subtalâmico) ou no mesencéfalo (substância negra), e juntos formam uma rede de circuitos que modula o córtex motor por meio de vias talâmicas, participando do planejamento, escolha e execução de movimentos regulares com base em aferências das áreas pré-motora ou motora suplementar e área somestésica.
Para exercer essa modulação, há um circuito motor principal, que integra todos os núcleos da base exceto a substância negra. Esse circuito apresenta duas vias que trabalham paralelamente: uma via direta que estimula os núcleos ventral anterior e ventral lateral do tálamo, resultando na ativação do córtex motor e na facilitação da execução dos movimentos; e uma via indireta que inibe esses núcleos talâmicos, resultando na inibição da atividade cortical motora e dificultando a movimentação. Cada uma dessas vias estará mais ou menos ativa de acordo com as informações trazidas pelas aferências corticais ao corpo estriado, que é a estrutura inicial do circuito. Se o estímulo cortical for de iniciação do movimento, a via direta será mais ativa para permitir a contração de uma musculatura agonista, a via indireta trabalhará no sentido de inibir a contração da musculatura antagonista e permitir o movimento. Quando o estímulo for para a finalização do movimento, os papéis invertem e a via indireta irá assumir o controle para inibir a ação da musculatura agonista, resultando em seu relaxamento.
Ligado a esse circuito motor principal, existe o circuito nigroestriatal, que conecta a substância negra e o corpo estriado. Por meio deste circuito que os neurônios dopaminérgicos da substância negra exercem sua importância ao modular a atividade das vias do circuito motor: a dopamina produzida é enviada ao corpo estriado, onde tem uma ação excitatória sobre a via direta e uma ação inibitória sobre a via indireta, devido à diferença dos receptores acoplados a cada via. Na doença de Parkinson, com a diminuição da produção dopaminérgica, a estimulação da via direta diminui, assim como a inibição sobre a via indireta. Como consequência, haverá uma menor ativação do córtex motor, o que dificulta a execução de movimentos e configura um distúrbio hipocinético.
QUAL A CAUSA DA DOENÇA?
Infelizmente, ainda não é conhecida a causa para a degeneração dos neurônios dopaminérgicos da substância negra, mas a hipótese de maior força na atualidade considera o envolvimento de uma proteína presente nos neurônios chamada de alfa-sinucleína. A alfa-sinucleína sofreria uma alteração em sua conformação física, o que a tornaria predisposta a formar depósitos proteicos que prejudicam o funcionamento neuronal e servem como um gatilho para a morte celular programada. Essa hipótese é sustentada pela presença de corpos de Lewy em neurônios afetados. Ainda que não se saiba a causa exata, já é conhecido que a Doença de Parkinson tem uma forma idiopática ou esporádica e outra forma familiar. Além disso, há também as formas sintomáticas de parkinsonismo, que são um grupo de doenças com diferentes etiologias que apresentam sintomatologia similar ao Parkinson. Algumas das formas mais comuns são as causadas por uso de alguns fármacos, encefalite, lesões isquêmicas, tumores e até mesmo outras doenças neurodegenerativas.
SINTOMAS MOTORES E NÃO MOTORES
DIAGNÓSTICO
O diagnóstico da Doença de Parkinson é clínico, ou seja, feito por um médico. Para confirmar o diagnóstico existem testes sorológicos como o de coordenação dedo-nariz, em que o paciente com os ombros em abdução de 90° e cotovelos estendidos, pede-se para o mesmo levar a ponta do dedo indicador até a ponta de seu nariz, de forma bilateral e intercalada por alguns segundos observando se ocorrem dismetrias e alterações no movimento. Além desse, existem inúmeros testes que podem ser feitos, dependendo de cada sintoma de cada paciente, porém uma parte importantíssima do diagnóstico são os exames neurológicos, por exemplo o Trodat é um exame de tomografia cerebral em que um contraste é injetado e se liga às células produtoras de dopamina.
TRATAMENTOS
A fisioterapia aquática, por exemplo, tem como aliado a água para o tratamento do indivíduo, isso porque a água tem propriedades físicas que ajudam na intervenção, como: densidade relativa, flutuação, pressão hidrostática, viscosidade, fluxo, temperatura e torque. Essas propriedades agem diretamente na dor por um mecanismo de redução de sensibilidade das terminações nervosas livres, além de atuar diretamente no tônus muscular. Além disso, a fisioterapia aquática promove aumento da qualidade de vida dos participantes, isso porque este tipo de tratamento promove aspectos não motores no paciente, como: o não medo de cair, a capacidade de confiar em si mesmo em relação ao equilíbrio, aspectos relacionados ao sono e consequentemente a qualidade de vida do paciente. Além da psicoterapia e fisioterapia, medicações com o objetivo de restaurar os níveis dopaminérgicos na via nigroestriada são utilizadas para amenizar os sintomas, sobretudo os motores.
Autoras: Ana Beatriz Ferreira e Inaê Andreis
Gostou deste tipo de conteúdo? Então continue nos acompanhando aqui no Blog e no nosso Instagram para aprender sobre mais neurociências!
Instagram: @lamd_ufpr
REFERÊNCIAS
GONZALEZ-USIGLI, H. A. Doença de Parkinson. Disponível em: <https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/dist%C3%BArbios-neurol%C3%B3gicos/transtornos-de-movimento-e-cerebelares/doen%C3%A7a-de-parkinson#Tratamento_v1043652_pt>.
LEITE SILVA, A. B. R. et al. Premotor, nonmotor and motor symptoms of Parkinson’s Disease: A new clinical state of the art. Ageing Research Reviews, v. 84, p. 101834, fev. 2023.
MAGALHÃES, F. et al. Teorias causais, sintomas motores, sintomas não-motores, diagnóstico e tratamento da Doença de Parkinson: uma revisão bibliográfica. Research, Society and Development, v. 11, n. 7, p. e10811729762, 17 maio 2022.
BAEHR, Mathias; FROTSCHER, Michael. DUUS: Diagnóstico Topográfico em Neurologia. 5º Edição. Rio de Janeiro: Dilivros, 2015.
LENT, Roberto. Cem Bilhões de Neurônios?: Conceitos Fundamentais de Neurociência. 2º Edição. Atheneu, 2010.
HAYES, M. T. Parkinson’s Disease and Parkinsonism. The American Journal of Medicine, v. 132, n. 7, p. 802-807, 2019
SANTOS, G. F. et al. Doença de Parkinson: Padrão epidemiológico de internações no Brasil. Research, Society and Development, v. 11, n 1, p. e13511124535, 2022



Comentários
Postar um comentário