Entendendo a Esquizofrenia

 

A esquizofrenia é um dos transtornos psiquiátricos mais graves e possui alta prevalência, acometendo cerca de 1% da população mundial e, segundo estimativa do IBGE, só no Brasil atinge cerca de 2,2 milhões de pessoas. É caracterizada por uma perda de contato com a realidade e por perturbações de pensamento, percepção, humor e movimento. Esses sintomas tornam-se aparentes durante a adolescência ou no início da vida adulta e, em geral, persistem ao longo de toda a vida. O termo foi cunhado em 1911 pelo psiquiatra suíço Eugen Bleuler e significa “mente dividida”, já que muitos pacientes pareciam oscilar de estados normais e anormais. Na verdade, há muitas variações nas manifestações da esquizofrenia e ainda não está claro se trata-se de apenas uma ou várias doenças.

Como a Esquizofrenia se manifesta?

Os sujeitos afetados pela esquizofrenia frequentemente apresentam delírios organizados ao redor de um tema; por exemplo, eles podem acreditar que adversários poderosos estão esperando para os capturar. Esses delírios estão geralmente acompanhados por alucinações auditivas (p. ex., ouvem vozes imaginárias) relacionadas com o mesmo tema. Pode também haver uma ausência de expressão emocional, juntamente com comportamento desorganizado e discurso incoerente. O discurso pode ser acompanhado por comentários tolos e risos que parecem não ter qualquer relação com o que está sendo dito. Em alguns casos, a esquizofrenia é acompanhada por peculiaridades do movimento voluntário, como imobilidade e estupor (catatonia), posturas bizarras e caretas, e repetições de palavras ou frases sem sentido, como um papagaio. Esse quadro cria sérias dificuldades sociais e laborais para os portadores e suas famílias.

Quais são as causas da Esquizofrenia?

Apesar de saber-se pouco a respeito de suas causas, os recentes achados sugerem que há nessa doença uma íntima relação genética, uma vez que quanto maior o compartilhamento de genes, maior a propensão ao desenvolvimento de um quadro esquizofrênico, com gêmeos univitelinos possuindo uma tendência de 50% a apresentarem os sintomas do irmão. Essa predisposição genética é ativada por agentes ambientais com a consequente deflagração do quadro esquizofrênico, como o uso de
Cannabis, eventos traumáticos na infância, infecções e nutrição materna deficiente durante a gestação.
  Há evidências de que, principalmente, os sistemas dos neurotransmissores dopamina e glutamato estejam desregulados na doença, cujos mecanismos são utilizados no tratamento farmacológico. Há, também, aumento dos ventrículos laterais, provavelmente devido à atrofia do tecido neural ao seu redor. Defeitos nas bainhas de mielina que envolvem axônios no córtex cerebral (embora não esteja claro se isso é uma causa ou uma consequência da doença), reduzida espessura cortical e laminação neuronal anormal são outras alterações estruturais da patologia.


Qual o tratamento?

  Não há cura para a esquizofrenia, mas existem tratamentos que, se seguidos de maneira regrada, aumentam consideravelmente a qualidade de vida, pois reduzem a necessidade de internações. Ele deve abranger medicamentos (antipsicóticos como clozapina e risperidona), psicoterapias, terapias ocupacionais e familiares. Terapeutas devem ensinar sobre a doença aos parentes, ajudá-los na compreensão e na solução pacífica dos conflitos, reduzindo assim o estresse e as recaídas. Dessa forma, a presença de uma rede de apoio para essas pessoas é de extrema importância.
  No Brasil, o tratamento da esquizofrenia se faz predominantemente através dos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial - são serviços que visam a inclusão social, a reabilitação psicossocial entre outros objetivos fundamentais no tratamento, onde trabalham diversos profissionais da saúde mental – psicólogos; enfermagem; assistentes sociais; médicos psiquiatras; educadores físicos; terapeutas ocupacionais etc) e de outros serviços extra-hospitalares (centros de convivência; grupos de auto ajuda; associações de familiares e portadores de esquizofrenia).

A pessoa com esquizofrenia é naturalmente violenta?

  Não é correto associar automaticamente a esquizofrenia à violência. A maioria dos indivíduos com a doença não é violenta. De acordo com uma pesquisa publicada no American Journal of Psychiatry, pessoas com esquizofrenia têm mais chances de serem vítimas do que perpetradoras de crimes violentos. A violência geralmente pode ocorrer se a pessoa não aceitar tratamento ou abandonar o uso dos medicamentos prescritos e evoluir com delírios e alucinações que podem, aí sim, levar a comportamentos agressivos como defesa de alguma realidade paralela criada pela mente do paciente, daí a importância de um bom acompanhamento familiar e médico.
  Outros tabus como a necessidade de internações prolongadas, a impossibilidade de recuperação e a atitude de culpar o paciente ou a família pela doença também precisam ser desmistificados para o bem daqueles que lutam para vencê-la.

Se você quer saber mais sobre esse importante transtorno mental, aqui vão algumas dicas:

Filme “O solista” - YOUTUBE, AMAZON PRIME VIDEO.

  O filme “O solista”, dirigido por Joe Wright e estrelado por Robert Downey Jr. e Jamie Foxx, retrata a história real do escritor americano Steve Lopez e do morador de rua Nathaniel Anthony Ayers Jr, que toca um violino de apenas duas cordas nas ruas de Los Angeles e sofre de esquizofrenia. A busca de Steve por uma vida mais digna e pela retomada à carreira na música a Nathaniel levam o jornalista a compreender os aspectos do cuidado com pessoas com a patologia, o estigma social enfrentado e a encarar o lamentável tratamento do poder público. Mais do que isso, a amizade traz a autorreflexão e a mudança de conduta diante da vida.


Artigo
Para saber mais a respeito da esquizofrenia e o estado atual da pesquisa, assim como os importantes progressos dos fatores genéticos e epigenéticos envolvidos na resposta antipsicótica, você pode ler o artigo de revisão: Toward personalized medicine in schizophrenia: Genetics and epigenetics of antipsychotic treatment. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0920996421001705?casa_token=rqyb5Mpb8IwAAAAA:EyXCc_hubEzAuSYZxBWDJLUvwout9V-H9vhHWxpih9dMxz0COcS79ey2c4a6RBuYPm8J-NY3LHUh.

Autor: Gabriel Fernandes 

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

BEAR, M. F; CONNORS, B. W; PARADISO, M. A. Neurociências: desvendando o sistema nervoso. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.

BIANCO, C. Esquizofrenia: Mitos E Verdades Na Visão De Doutores Especialistas. Portal Medicina Ribeirão, 2023. Disponível em: https://medicina.ribeirao.br/2023/07/19/mitos-e-verdades-sobre-esquizofrenia/.

LACERDA, A. Desvendando a esquizofrenia, seus sintomas e desafios.Veja Saúde, 2023. Disponível em: https://saude.abril.com.br/coluna/com-a-palavra/desvendando-a-esquizofrenia-seus-sintomas-e-desafios.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Dia Nacional da Pessoa com Esquizofrenia: cercada de tabus, doença tem tratamento no SUS. 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2021/maio/dia-nacional-da-pessoa-com-esquizofrenia-cercada-de-tabus-doenca-tem-tratamento-no-sus.

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