NeuroResenha: O outro mundo de Sofia
O documentário “O outro mundo de Sofia”, disponível no Globoplay, já estava na minha lista de desejos a muito tempo. Sendo estudante de biomedicina e neurociências, é quase impossível de não ser atraído por um tema tão interessante (e polemico) como esse, ainda mais com participação do grande neurocientista Sidarta Ribeiro e da Fundação Oswaldo Cruz apoiando cientificamente esse filme.
O documentário é dirigido por Raphael
Erichsen e dividido em duas partes. As imagens são bonitas, os diálogos
claros e a primeira parte do filme, em especial, envolve totalmente a atenção
do espectador. Quase impossível não se sensibilizar e desenvolver empatia pelo sofrimento
de uma mãe que quer apenas o melhor para sua filha – e no futuro para todos os
brasileiros que precisem de qualidade de vida.
Falando nela, Sofia é a grande estrela do filme. Atualmente
com 13 anos, ela é portadora do transtorno da deficiência do gene CDKL5 (cyclin-dependent kinase-like 5) ligado
ao cromossomo X e só descrito na literatura recentemente em 2004. Esse gene
codifica uma proteína essencial na organização de neurônios, e essa condição
faz com que o paciente tenha inúmeras complicações, dentre elas, crises
epiléticas desde os primeiros meses de vida.
O diagnostico veio quando a
menina tinha 2 anos e meio, depois de passar por diversos médicos que nunca
entravam em um consenso. Sofia tinha cerca de três crises convulsivas por dia,
até que seu pai descobre um caso de uma criança americana, com diagnóstico
semelhante, que utilizava cannabis como tratamento. Os pais importaram o óleo e
viram resultados impressionantes na filha. Não apenas as crises tinham diminuído,
mas o sono, alimentação e estresse tinham melhorado também. Margarete e Marcos
passaram então a plantar maconha na varanda de sua casa para produzir o remédio
da filha, mesmo podendo ser presos por agirem contra a lei.
E assim, iniciado por um ato de amor incondicional, esses pais mudaram a história brasileira, e salvam todos os dias milhares de pessoas que conseguem viver com dignidade e qualidade de vida.
Durante o filme, são
discorridos diversos temas, que estão entrelaçados à causa da maconha
medicinal. Política, racismo, ciência, guerra às drogas, religião, preconceito,
legislação e desobediência civil são alguns tópicos que são abordados de forma
descomplicada, para que qualquer pessoa que assista consiga pensar “fora da
caixinha”.
É comum, durante a exibição, se lembrar de
como a alguns anos atrás esse assunto era proibido. Além disso, proponho até
uma autorreflexão, para refletirmos sobre um pensamento preconceituoso que já tivemos,
talvez por falta de conhecimento ou ignorância sobre o tema. A própria Margarete
comenta em um momento, que nunca na vida dela imaginou-se um dia plantando
maconha.
Repleto de depoimentos de pacientes com mais variadas doenças, é emocionante conhecer o trabalho da APEPI (Associação fundada pelos pais de Sofia), que hoje atende mais de 3.000 associados, beneficiados com o óleo produzido na fazenda da família. A produção inicia-se no plantio e termina no laboratório, tudo com muita clareza e dentro das normas do controle de qualidade.
Só mesmo assistindo esse
filme, narrado pela Bia (irmã da Sofia), para mergulhar em outro mundo. O mundo
da Sofia infelizmente nós não sabemos como é. Mas o nosso mundo ainda tem muita
coisa para melhorar. Assistir um documentário como esse, falar sobre a
liberação do plantio de maconha, e defender o direito à saúde do próximo já é um
bom começo.
Conheça a APEPI em: https://apepi.org/ e apoie essa causa!
E você? Gostou dessa
resenha? Continue nos acompanhando para as próximas.
Escrito por Juliana Praxedes
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