Os efeitos do estresse crônico no cérebro

Afinal, o que é o estresse? 


O estresse é uma reação natural do corpo a situações de perigo ou ameaça que requerem um estado de alerta ou alarme, com alterações físicas ou emocionais no indivíduo. Tais reações compõem uma resposta evolutivamente selecionada que prepara o organismo adaptando-o às diversas circunstâncias. Fisiologicamente, o estresse no corpo está relacionado à atividade do sistema nervoso autônomo por meio da produção de corticotrofina pelo eixo hipotálamo-hipófise que atua sobre as glândulas suprarrenais, estimulando a liberação de cortisol, epinefrina e norepinefrina na corrente sanguínea, os quais atuam em todo o corpo, inclusive no encéfalo. O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal é regulado pela amígdala e hipocampo.




O estresse crônico

Por mais que esse seja um sentimento comum e de ocorrência possível para todos nós, a exposição excessiva e frequente ao estresse, própria da sociedade moderna, gera uma série de problemas psicológicos, biológicos e sociais que devem ser observados com atenção.  Nesse caso, o estresse passa de um evento esporádico (estresse agudo) a um estado de frequente sofrimento (estresse crônico). Insônia, irritabilidade, sentimento de sobrecarga e falta de memória e concentração são alguns dos sintomas enfrentados.




Como esses hormônios em excesso afetam o cérebro

O cortisol viaja pela corrente sanguínea até o encéfalo e liga-se a receptores no citoplasma de muitos neurônios. Os receptores ativados viajam para o núcleo da célula, onde estimulam a transcrição gênica e, em seguida, a síntese proteica, processo que desencadeia, a curto prazo, mudanças que tornam o encéfalo apto a lidar com o estresse. Pesquisadores das universidades de Rockefeller e Stanford apontaram que altas doses de cortisol administradas em ratos levam à retração de dendritos, impedimento da neurogênese e morte de neurônios do hipocampo, o que pode está relacionado com a perda e impedimento à formação de novas memórias bem como o controle dos próprios níveis de cortisol por ser o hipocampo o responsável por essa função. Prejuízos na concentração, julgamento, tomada de decisão e interação social são consequências da diminuição do córtex pré-frontal diante do estresse crônico. Além disso, o aumento do número  de conexões na amígdala, o centro de controle do medo no cérebro, e a queda da produção de serotonina, sem a qual há desregulação da melatonina — hormônio do sono —, resultam nos quadros de insônia. Todos esses fatores levam ao aumento considerável do risco ao desenvolvimento de diversos transtornos psiquiátricos como depressão e síndrome de Burnout.




Como mudar esse quadro

Algumas atitudes simples podem ajudar a evitar o aumento dos níveis de estresse de forma desequilibrada no corpo e até mesmo reverter os seus efeitos. A prática de exercícios físicos ajuda a reduzir a quantidade de cortisol liberada em situações estressantes, além de estimular a produção de endorfina na corrente sanguínea — hormônio do bem-estar. Meditar também é uma ótima opção, uma vez que possibilita que a pessoa foque em si mesma e fique menos agitada. Além disso, alimentar-se bem, fazer exercícios de respiração e identificar os agentes causadores do estresse de modo a evitá-los ou reduzir sua influência são outras ótimas estratégias para romper esse ciclo. Em casos extremos, o mais indicado é o acompanhamento por profissionais psicólogos e psiquiatras.


Para mais informações sobre os efeitos do estresse no corpo acesse o vídeo "Como o estresse afeta seu corpo - Sharon Horesh Bergquist" do canal TED no YouTube. Nele são expostas interessantes consequências fisiopatológicas do aumento dos níveis dos hormônios estressores.

Link: https://youtu.be/v-t1Z5-oPtU

No livro, Sociedade do cansaço, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han reflete sobre as consequências psicológicas e sociais de um sistema que cobra constantemente por produtividade e desempenho. Uma boa leitura com abordagem social crítica acerca da problemática do sentimento generalizado de estresse e ansiedade do mundo contemporâneo.

Para quem objetiva aprofundar-se na discussão, o comentário do  neuroendocrinologista Robert M. Sapolsky na revista Nature Neuroscience intitulado "Stress and the brain: individual variability and the inverted-U" é um bom ponto de partida.

Link: https://www.nature.com/articles/nn.4109





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Post criado por: Gabriel Fernandes


Referências: 

BEAR, Mark F; CONNORS, Barry W.; PARADISO, Michael A. Neurociências: desvendando o sistema nervoso; tradução: Carla Dalmaz et al. 4. ed. Porto Alegre : Artmed, 2017.

JULIANO R. Bueno; CIBELE M. C. P. Gouvê. Cortisol e exercício: efeitos, secreção e metabolismo. Universidade Federal de Alfenas - UNIFAL, Alfenas/MG. Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 10 Número 3 - julho/setembro 2011.


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