Tudo sobre neurocirurgia - entrevista com Dr. Otavio Turolo
O NeuroBlog da LAMD, trouxe uma entrevista exclusiva para você saber um pouco mais sobre neurocirurgia! Confira abaixo nossa conversa com o Dr. Otavio Turolo.
Dr. Otavio Turolo é médico graduado pela Faculdade Medicina Estadual de Marília (Famema), fez Residência Médica em Neurocirurgia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Doutorado em Ciências pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é Membro Titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN), da Sociedade Brasileira de Coluna (SBC), da Sociedade Brasileira para Estudo da Dor (SBED), da International Association for Study of Pain (IASP) e da AOSpine, e atualmente é Professor de Medicina da Universidade Paulista (Unip).
Qual a atuação de um neurocirurgião?
Ele atua nas cirurgias de crânio, e coluna. Por exemplo, quando alguém tem uma lesão no cérebro e precisa fazer uma cirurgia, é uma situação em que precisa consultar um neurocirurgião. Mas não apenas isso, também as anomalias vasculares, como por exemplo os aneurismas e más formações arteriovenosas, que também são áreas de tratamento da neurocirurgia. Outra área é o tratamento de hidrocefalias, e o neurocirurgião também faz o tratamento cirúrgico para dor. Além desses exemplos, tem vários métodos intervencionistas que nós acabamos atuando, como em distúrbios de movimento na doença de Parkinson, estimulação cerebral profunda, dentre outras. O neurocirurgião tem um campo de atuação muito grande... No dia a dia acaba sendo mais a questão de traumas.
Quais os tipos de cirurgias mais frequentes? E por quais
motivos?
O mais comum são as emergências. Então nesses casos, o paciente sofre um acidente e precisa ser operado de urgência. Ou casos de acidente vascular cerebral, onde ocorre uma hemorragia. Essas são as cirurgias mais comuns e frequentes no dia a dia do neurocirurgião. No consultório e na clinica vem bastante casos de tumores, principalmente casos referenciados.
Quais os riscos de uma cirurgia neurológica?
Tem muitos riscos! Cirurgias neurológicas, no cérebro
principalmente, você manipula estruturas primarias, como área motora e fala,
dependendo da região acometida. Então existe riscos relacionados a sequelas
neurológicas importantes, isso é fato. Mas depende da área acometida, tem áreas
que não são eloquentes. Mas são cirurgias de alta complexidade e cursam muitas
vezes com a mortalidade, então o paciente pode ter algum tipo de sequela... Mas
isso tem um planejamento e é discutido com o paciente antes, para ver os riscos
e benefícios de acordo com a patologia que está sendo tratada.
Por que existem neurocirurgias em que o paciente precisa
estar acordado?
A cirurgia acordada ganhou muita notoriedade recentemente após serem exibidos casos na televisão, como aqueles pacientes acordados tocando violão e esse tipo de coisa (risos). A importância de o paciente estar acordado, é porque você tem a possibilidade de mapear áreas relacionadas a linguagem, como por exemplo as áreas de fala. Lesões como tumores, principalmente, que afetam áreas relacionadas a fala, ocorre essa indicação de fazer a cirurgia com o paciente acordado.
Qual a importância da multidisciplinariedade das profissões
no pós cirúrgico de um paciente?
Isso é totalmente relevante. Hoje em dia, em todo tratamento do paciente, não só neurológico, ele vai ter uma equipe multidisciplinar. Na neuro é mais importante ainda, pois dependendo da patologia eles se encontram acamados, com dificuldades de deglutição e necessidade de curativos. Precisa de um fisioterapeuta especialista em reabilitação neurológica, um fonoaudiologista especialista em fala e deglutição, uma equipe de enfermagem especialista em curativos, e todo cuidado é diferenciado! Tem que ter uma equipe multidisciplinar muito bem treinada e habituada para esse paciente, e isso acontece na maioria dos hospitais.
Em 2022, uma equipe médica brasileira se tornava referência
nacional, após nove cirurgias para separar gêmeos unidos pelo crânio em um
procedimento custeado pelo SUS com parceria internacional. Porque esse tipo de
má formação acontece? Qual a dificuldade desse tipo de cirurgia? Quais os
procedimentos pós cirúrgicos para esse tipo de paciente?
Tivemos dois casos de gêmeos craniópagos, como esse no
Brasil na última década. Ninguém sabe o porquê que ocorre esse tipo de má
formação. Eles são um tipo de gêmeos siameses, mas unidos pelo crânio, uma
anomalia muito rara! Existem pouquíssimos no mundo. É uma cirurgia muito
difícil e necessita de um grande planejamento pois geralmente essas crianças
dividem vasos importantes do cérebro, como o seio sagital superior. A grande dificuldade
é quando você separa uma das crianças e tem que fazer uma anastomose para
restabelecer o fluxo sanguíneo cerebral, e isso é uma coisa extremamente
trabalhosa e demorada. Reconstruir o vaso é uma grande dificuldade! Além da
reconstrução da pele, com enxerto, e como não tem muito tecido para fechar
aquela parte da criança que esta exposto, é tudo muito difícil. Como a criança
é pequena, exige um panejamento de meses, e tem o risco de perder as duas
crianças...É uma das coisas mais dificultosas que existem na medicina.
O que é a estimulação cerebral profunda? Quando ela é
indicada? Qual o futuro da Neuromodulação?
O próprio nome já diz tudo. É quando você estimula
estruturas cerebrais profundas, introduzindo cateteres que geram impulsos
elétricos. A principal atuação dessa técnica é para Doença de Parkinson,
visando amenizar os sintomas dessa patologia. Basicamente isso! Existem
diversas técnicas para fazer, mas a principal é a estimulação do núcleo sub
talâmico que melhora a rigidez do paciente e diminui o tratamento
farmacológico, melhorando a qualidade de vida. É uma técnica padrão ouro no
tratamento dessa doença, hoje em dia se faz tanto no SUS, como na clinica
privada e tem bons resultados! O futuro é aplicar essa técnica para tratar
outras patologias, como por exemplo: distúrbios psiquiátricos, depressão grave,
transtorno obsessivo compulsivo, transtornos alimentares. Tem muita pesquisa
nessa área!
Por que você escolheu a Neurocirurgia e qual conselho daria
para quem quer essa área?
Eu não ia fazer neurocirurgia, mas durante o 6 ano eu fiz
um estagio e gostei muito! Esse estagio foi um fator determinante para fazer o
curso de residência, que foi muito difícil. Os pacientes exigem mais da gente,
porque são doenças graves. É uma área gratificante. O que me motiva é que é uma
área desafiadora, sempre no limite da medicina. Está sempre surgindo coisas
novas, e sempre mudando!
Você poderia indicar um livro ou um filme para o nosso
Blog?
O filme mais famoso é Mãos Talentosas. E um livro: Minha
história na Neurocirurgia. O autor é um neurocirurgião aposentado e conta várias
histórias de pacientes. É um livro bacana!
Agradecemos o Dr. Otavio pelo bate-papo!
Gostou? Siga a gente no Instagram: @lamd_ufpr
Post criado por: Diretoria Acadêmica


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